Quatro dos nomes mais poderosos da República apareceram no mesmo pedido, e isso por si só já muda o peso de tudo o que vem depois.
Mas por que esse movimento chamou tanta atenção?
Porque não se trata de um embate comum entre governo e oposição, nem de uma crítica genérica ao Judiciário.
O que surgiu foi um relatório formal, dentro de uma CPI do Senado, pedindo indiciamentos de autoridades que ocupam o topo do sistema de Justiça.
E é justamente aí que muita gente para e pensa: isso pode mesmo acontecer?
Pode ao menos ser pedido, e foi exatamente isso que ocorreu.
O relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira, apresentou um documento de 221 páginas em que pede o indiciamento de quatro autoridades.
Só que há um ponto que quase passa despercebido: o texto ainda precisa ser aprovado pela comissão.
E, antes disso, um pedido de vista pode adiar a votação.
Então a pergunta muda: quem são os alvos e por quê?
Os nomes são os ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Mas o que sustenta um pedido tão sensível?
Segundo o relator, a base está no caso do Banco Master, que aparece como eixo central das suspeitas analisadas pela comissão.
E é aqui que a maioria se surpreende: o relatório não fala em acusações genéricas, mas em possíveis crimes de responsabilidade previstos na Lei 1.079 de 1950.
Que crimes seriam esses?
Mas o que, na prática, levou o relator a essa conclusão?
No caso de Toffoli, o relatório menciona uma relação financeira indireta com investigados, por meio da empresa Maridt, controlada por seus irmãos e da qual o ministro é sócio.
O documento também cita que essa empresa vendeu participação em um resort ao Fundo Arleen, que teria recebido recursos do Fundo Leal, ligado ao cunhado de Daniel Vorcaro.
Além disso, Vieira destaca decisões consideradas atípicas no caso, como a determinação de lacração e guarda, no STF, de celulares apreendidos de investigados.
Só que não para por aí.
O relator também menciona viagens de Toffoli em aeronaves privadas de pessoas próximas a Vorcaro.
Depois da divulgação dessas informações, Toffoli deixou a relatoria do caso em 12 de fevereiro de 2026 e negou qualquer relação com o banqueiro.
E com Moraes, o que pesa?
O relatório afirma que o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, manteve contrato com o Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. Vieira sustenta que isso comprometeria a imparcialidade do magistrado.
O escritório informou que prestou serviços ao banco, mas disse que nunca atuou em causas no STF e não confirmou os valores citados.
O relator também menciona uma suposta mensagem enviada por Vorcaro a Moraes no dia da prisão, embora o ministro negue conversas com o investigado.
E tem mais um detalhe que reacende a curiosidade: o senador também critica a atuação de Moraes na apuração do vazamento de dados fiscais e bancários de ministros do Supremo, dizendo que, em vez de se afastar, ele teria agido de forma incompatível com o cargo.
Moraes abriu inquérito de ofício, algo previsto no regimento interno da Corte.
E Gilmar Mendes, por que entrou no relatório?
Nesse ponto, a crítica é diferente.
Vieira afirma que o ministro agiu de forma incompatível com o cargo ao suspender a quebra de sigilos da Maridt, empresa da família de Toffoli, no âmbito da CPI.
Segundo o relatório, Mendes determinou que Banco Central, Receita e Coaf deixassem de enviar dados e ainda ordenou a inutilização ou destruição de informações já remetidas.
O ministro justificou sua decisão dizendo que a quebra de sigilo não poderia ter sido aprovada em bloco e de forma simbólica, por se tratar de medida excepcional.
Mas o que acontece depois é o que realmente pesa no texto: o relator interpreta essa decisão como uma manobra processual.
E por que Paulo Gonet também aparece?
Porque, segundo Vieira, o procurador-geral da República teria sido omisso diante dos indícios reunidos sobre Toffoli e Moraes no caso Banco Master.
O relatório sustenta que, quando os elementos são públicos, documentados e convergentes, a omissão deixaria de ser discricionariedade e passaria a configurar infração prevista na mesma lei.
A assessoria de Gonet informou que ele não comentaria o assunto.
Então qual é o ponto principal de tudo isso?
O relatório da CPI pede o indiciamento de Toffoli, Moraes, Gilmar Mendes e Paulo Gonet com base em supostos crimes de responsabilidade ligados ao caso Banco Master.
Como essas infrações podem ser julgadas pelo próprio Senado, o peso político e institucional do documento é enorme.
Só que o desfecho ainda não chegou.
O texto precisa passar pela comissão, pode ter a votação adiada e, mesmo depois disso, a discussão está longe de terminar.
Porque, quando uma CPI mira o topo da Justiça, a notícia não acaba no pedido — ela começa nele.